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Abstract(s)
Partimos, na nossa investigação trabalho, da constatação de Eduardo
Lourenço, segundo o qual «desde os tempos de Pascoaes a poesia portuguesa
se esforçava por conciliar Apolo e a sua mística expressão solar da vida com
Cristo, sombra sob tanto excesso de sol, deus morto para que a Morte não se
confundisse com a Vida digna desse nome. Se em algum sítio essa conciliação
teve lugar foi na poesia de Sophia».
Justamente esta conciliação, na obra de Sophia, entre Atenas e
Jerusalém, entre o Evangelho e a Grécia, tem levado os comentadores a
considerá-la quase sempre uma expressão da Grécia, reduzindo a sua poesia
ou silenciando por razões ideológicas senão jacobinas a outra parte da
medalha. Se é verdade, como reconhece Eduardo Lourenço, que o primeiro
mundo de Sophia quase ignora a tensão e o horizonte da palavra, preferindo o
naturalmente divino, que fruía muito cedo como menina do mar e que a
descoberta de Homero e do mundo grego, sem dúvida idealizado, mais
reforçou, também é verdade que a poetisa é devedora de uma «outra Escritura
que a sua religião tradicional perpetua», como refere o ensaísta.
Sem que uma ou outra parte desta conciliação tome prevalência,
consideramos, como julga ainda Eduardo Lourenço, «Sophia musa de si
mesmo» e, por isso, capaz de percorrer símbolos, imagens, histórias, lendas –
de Cristo a Antígona, das Ménades a menina do Mar – onde consubstancia
figurações de heroísmo, de justiça, de transcendência plenificante ou de
pobreza contingente, sempre a partir dum sujeito que busca no dizer o ser das
coisas.
Sophia define a poesia como caminho para o real, como busca de uma
aliança positiva com as coisas. Neste caminho para o real sentido e vivido,
representado por símbolos, movimentos cívicos, atitudes, está a busca da
transcendência na poesia de Sophia. Por isso, a tensão que a alimenta é entre
dois mundos e são esses dois mundos que procuramos surpreender em Sophia nas duas partes da nossa investigação e nos capítulos que as
constituem.
A palavra poética procura precisamente desprender-se de para chegar
a, ou levar aos confins do real, de forma a representar o objecto pressentido.
Pressentido e perseguido sem descanso em fulgurações e figurações diversas.
Entre a recusa e a invocação, entre a ruptura e a instauração, entre a
espessura do mal e a justiça dos deuses, entre o tempo dividido e o tempo
aberto, logra-se uma tensão, que atinge os confins na tensão entre a morte e a
ressurreição. Os símbolos e as figurações provocados por esta tensão ocupam
a nossa primeira parte.
Numa segunda parte, desenvolvemos as figurações gregas e cristãs da
idealização, fazendo ressaltar a idealização onde se inscrevem os tópicos
duma possível leitura teológica, tais como, a relação entre o poder e a
consciência, a relação entre liberdade, esperança e ressurreição e finalmente o
rosto de um Deus sempre procurado e figurado e sempre oculto.
Ao longo do nosso trabalho constatamos que o texto de Sophia esconde
e guarda uma comunicabilidade íntima e muito rica. Nas palavras do Bispo do
Porto, uma relação ao outro em todos os sentidos que lhe «faz trespassar o
mistério da vida e, sondando as suas dimensões horizontais e verticais (…) e
assim se avizinhar, no que é possível ao homem, do Mistério do Inefável».
O que permite, para lá desta constatação, uma leitura teológica da obra
de Sophia é precisamente esta perseguição do real por uma linguagem que
longe dum qualquer didatismo, é um autêntico acontecer no sentido que lhe dá
Gadamer aqui de acordo com Heidegger.