Percorrer por autor "Fernandes, Fernando Augusto Braga"
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- Pedro e Inês : entre a realidade e a ficção, uma estória sem fimPublication . Fernandes, Fernando Augusto Braga; Lopes, Maria José de Araújo FerreiraA História e a Literatura são as duas faces da construção do imaginário coletivo português e, simultaneamente, são o resultado dessa mesma construção, refletindo idiossincrasias que identificam e distinguem esse imaginário e o consubstanciam como povo independente. Embrionariamente fundida na Península Ibérica, a nova ordem do mosaico cristão que se foi construindo a partir da Reconquista, assumida frequentemente no âmbito da presúria, refletia a tensão entre a força centrípeta do reino de Castela e as pulsões centrífugas dos reinos vizinhos, sobretudo dos mais periféricos. Ao longo dos séculos, muitas foram as reivindicações territoriais e as tentativas hegemónicas, quase sempre influenciados pelos interesses particulares de casas senhoriais poderosas. Sob a bênção da cruz e da espada, a individualidade de Portugal foi construída sobre a desconfiança da atração centrípeta do reino vizinho. Entre o medo da submissão e a ambição da proeminência, desenvolveu-se uma rígida estratégia de casamentos, consorciando entre si os descendentes das coroas ibéricas, como forma de garantir acordos políticos mais ou menos duradouros e alguma estabilidade social. Este procedimento acabou por construir, entre as casas reais, intrincadas teias familiares, potenciadoras de ingerências e da assunção de direitos sucessórios ambíguos. A mesma matriz estendia-se à alta nobreza, pouco ciente do dever patriótico e mais preocupada com a sua própria honra e proveito. Deste modo, o casamento acabava por (con)fundir duas linhas de força que enformavam as principais preocupações régias: o medo do perigo exterior e a mal disfarçada aspiração hegemónica sobre os territórios e reinos vizinhos. O mesmo receio e a mesma ambição eram partilhados pelas grandes casas senhoriais, cujo poder, igualmente potenciado por alianças e casamentos, atravessava as fronteiras e ameaçava o poder dos monarcas. É nesse contexto que surge, entre factos históricos e fabulações lendárias, a história de D. Pedro e de D. Inês de Castro, em meados do século XIV, que vai apaixonar a investigação e a produção artística, sobretudo literária, ao longo dos séculos. Nas últimas décadas, multiplicaram-se as abordagens e o tradicional discurso sentimental, de feição lírica e feminina, passou a conviver com análises algo provocatórias e carnavalescas, a que não é estranha a proliferação do chamado romance histórico pós-moderno. A narrativa Inês de Castro – A Estalagem dos Assombros, de Seomara da Veiga Ferreira, espraia um discurso marcadamente feminino e, ao mesmo tempo, realista e historicamente sustentado, fundado na revisitação da vida de D. Pedro, através da focalização interna de narradores alegadamente credíveis, como, por exemplo, D. Beatriz, sua mãe. A narrativa Adivinhas de Pedro e Inês, de Agustina Bessa-Luís, apresenta um discurso fundamentado em factos históricos, mas que, aqui e ali, deriva para o campo das suposições, balizado pela proeminência do narrador omnisciente. Algures, entre Seomara e Agustina, joga-se o grande dilema do romance histórico pós-moderno: o que é a verdade? Podemos vivenciá-la? Como podemos representá-la através da escrita? Nessa busca de clarificação do passado, o narrador assume uma função estratégica nuclear, adotando pontos de vista alternativos, no sentido de esclarecer o narratário acerca dos contornos que balizam a narrativa apresentada. Por vezes, esta cumplicidade acaba por esbater as fronteiras entre narrador e autor e entre narratário e leitor. Como consequência, a História, para mais crivada de incertezas, acaba por ser como nós a construímos.
