Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10400.14/14677
Título: Warum bin ich ein Christ?
Autor: Rahner, Karl
Data: 1981
Editora: Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Citação: RAHNER, Karl - Warum bin ich ein Christ ? Didaskalia. Lisboa. ISSN 0253-1674. 11:2 (1981) 241-251, 252-255
Resumo: Um cristianismo realmente vivido é uma existência humana na sua totalidade. Para mim o eu e o mundo são uma ilimitada questão. Gente que pense de outra maneira estará necessariamente convicta de que, em princípio, se pode chegar finalmente ao que está por detrás de toda e qualquer coisa. A particular realidade que eu próprio sou, poderia assim chegar a entender tudo, dado que esse tudo não seria senão a soma de particularidades. E seria então possível que tudo se deixasse abater na sua banalidade, no nada afinal. Mas o nada, em que se acabaria por um tal modo de questionar a realidade, não postula qualquer problemática ou exige qualquer esclarecimento, se é que, efectivamente, um tal nada nada é, e se por este termo — que, por si, não tem capacidade de designar o quer que seja de misterioso — se não quer designar algo de inteiramente diferente.
A mim abrange-me e penetra-me o eterno Mistério, o ilimitado Mistério. O Mistério está aí, ele exprime-se ao silenciar-se. Quando se não ama, adorando, o Mistério, então o Mistério torna-se escândalo. Ele não se deixa ordenar segundo as coordenadas do nosso mundo. Quando alguém se não dá a ele, amando-o, só o pode negar, revoltado, ou reprimi-lo, refugiando-se nos afazeres do dia a dia. A esse Mistério, que dá fundamento a toda a realidade particular, e espaço e horizonte a todo o conhecimento e liberdade, eu chamo Deus. Penso então que me situo naquele ponto do espírito, da inteligência e do conhecimento em que toda a racionalidade tem a sua origem. A ingente experiência, que tudo em mim faz estremecer, é esta de que o Mistério, que tudo abrange, suporta e penetra, que de tudo se distancia e tudo em si acolhe, que este Mistério me é acessível, que eu lhe posso falar, que posso orar.
Quando um tal acesso pela oração acontece, eu sei que isso é ainda acção desse mesmo Mistério; mas é precisamente essa a acção que faz com que eu esteja diante do Mistério, eu, diferente dele, posto na minha própria realidade. Deste modo, o aceder ao Mistério não significa perecer, mas participar justamente desse ilimitado Mistério. Eu faço a experiência — no que os cristãos chamam a Graça — de que o Mistério se dá como plenificação nossa. Para um cristão é proibido (e é esta a única proibição que tem de ser tomada por ele totalmente a sério) o contentar-se com menos do que a infinita plenitude de Deus.
O mundo não começou a regressar a si mesmo apenas no homem; mas Deus começou já a vir ao homem e o homem a Deus. O ilimitado, insuperável conceder-se a si mesmo de Deus ao homem está aí, tudo penetra, é a mais íntima enteléquia e dinâmica do mundo. Naturalmente que Deus não fica esgotado nesta sua «empresa». Na «detonação das origens» anuncia-se não o nascimento do próprio Deus, mas, se quisermos assim, o nosso próprio começo. Ao Mastério pertence que nós só dele «precisemos» se ele não «precisar» de nós. Só em virtude de um amor de parte a parte se pode dizer que Deus não poderia viver sem nós. E isto porque apenas por um amor assim é aquilo que se recebe aquilo também que se põe absolutamente à disposição do outro. E este o mistério do amor; e um tal amor é o Mistério que a si mesmo se nos concedeu. Quando o conceder-se a si mesmo de Deus atinge o espírito pessoal (do homem), quando a dinâmica deste para a imediatez do Deus mesmo se radicaliza, fazendo do Deus em si o fito e, simultaneamente, a dinâmica do espírito humano e sua história, então aquilo a que chamamos, em sentido próprio, revelação cristã dá-se já no seu verdadeiro sentido, embora ainda irreflectido e não verbalizado. A revelação cristã (como abertura de um horizonte ilimitado, como movimento em direcção ao ilimitado Mistério como tal, como liberdade superando tudo o que é singular) está presente, à maneira de força misteriosa, em toda a história humana da liberdade, sempre que esta, ainda que de inúmeras formas, se declare pelo inabarcável Mistério de Deus. Mas é na história das religiões, em toda a sua vastidão, que ela está propriamente actuante.
Eu olho com confiança o futuro da religião. Se o homem — o que, naturalmente, é um pensamento absurdo — viesse a tornar-se, por um desenvolvimento para trás, num ser sem ânsia de aboluto, sem «metafísica», num ainda que engenhoso animal ou num súbdito do seu computador, então aquilo a que se teria chegado seria simplesmente o fim da humanidade, acontecimento que o fiel cristão desde sempre considerou como parte do seu credo. Um tal fim seria o suicídio político-cultural da humanidade, dando razão àqueles que viviam acreditando. Mas o suicídio não é uma qualquer instância superior contra a vida. Enquanto o homem for o homem do ilimitado Mistério de Deus, haverá também religião, a qual, seja de que modo for, terá sempre o seu testemunho a dar na praça pública do dia a dia.
O meu cristianismo não tem apenas (se se quiser dizer assim) um carácter transcendental, «pneumatológico». Ele tem também, intrinsecamente, uma dimensão histórica. O acontecer histórico, no qual a oferta de Deus à humanidade se tornou irreversível e, nessa sua vitória, também historicamente apreensível e palpável, encontra-o a fé cristã em Jesus Cristo. Pelo anúncio que fez da proximidade do Reino de Deus, foi ele, o crucificado e ressuscitado, quem anunciou esse irreversível conceder-se a si mesmo de Deus ao mundo. Foi ele que, simultaneamente, pela sua unidade com Deus e solidariedade com todos os homens, se sabia ser o acontecimento dessa proximidade de Deus ao mundo que não pode já ser superada. Ele próprio assumiu com plena segurança a sua própria vinda, ao deixar-se precipitar no vazio e impotência da morte. E os homens conheceram-no como aquele que, com toda a sua existência, chegou realmente até Deus e foi salvo, nessa sua morte, única e total entrega ao Mistério: os homens conheceram-no como o «ressuscitado».
A partir daqui, encontro acesso ao sentido e credibilidade da cristologia clássica. Parece-me, no entanto, (para o dizer honestamente) que uma frase como esta: «Jesus é Deus» tanto pode ser inefavelmente verdadeira e salvífica, como pode ser também ocasião de um equívoco terrivelmente insensato. Na primeira hipótese, é a asserção de um caso único de unidade; na segunda, é uma asserção de identidade que só heterodoxamente pode ser entendida como senha da ortodoxia. O último e mais íntimo mysterium da cristologia reside afinal naquilo que todos para nós próprios esperamos, que podemos e devemos esperar, ou seja: que Deus se pode comunicar Ele mesmo ao homem, sem que tenha de se fazer representar de novo por uma realidade criada e sem que o homem seja desfeito no nada por essa comunicação. Na fé cristã, cristologia e pneumatologia pertencem uma à outra de forma indissolúvel.
Eu posso entender que o real encontro com o Absoluto, quando esse encontro não é apenas pensado mas também acolhido e realizado, é na facticidade da história que acontece e não apenas na abstracta dimensão das ideias. Ideias e especulação podem ser consideradas como pertencendo ao ser próprio do homem. Mas mesmo quando a elevação a tais alturas do espírito conduzisse àquela perfeita «iluminação», em que todo o véu de enganadora efemeridade parece cair, mesmo essa elevação, como apogeu do espírito, teria, ainda assim, de passar através da noite da morte para se tomar crível e definitiva. O caminho da transcendência e da mística atingem apenas o fim, quando o caminho da história atinge o seu fim na morte. Por isso o meu olhar procura aquele que, na história, morreu comigo e por mim. Juntamente com o número incontável dos outros cristãos, meus irmãos, tenho a coragem de confiar que essa morte foi acolhida na própria vida de Deus.
Quando a religião significa o que é mais próprio do homem e a totalidade que o constitui, então, logo à partida, ela não pode pretender significar de modo algum somente a individualidade e interioridade de cada um dos homens. A religião tem de ser a minha própria e livre convicção, tem de ser experienciada no mais íntimo centro da existência. Mas esta existência tem lugar apenas numa comunidade e sociedade, quando ela se abre no gesto de dar e receber. Além disso, o cristianismo é uma religião histórica, referida a um único Jesus Cristo. Não foi senão na Igreja que eu ouvi falar acerca dele. Daí que não possa permitir-me qualquer cristianismo em privado, que renegasse a sua própria origem.
Um tal cristão eclesial conhece bem, naturalmente, a historicidade da Igreja. Portanto conhece bem, igualmente, tudo o que tem acontecido de demasiado humano e desumano na história da Igreja, «na cabeça e nos membros». No passado e no presente. O cristão crê que a Igreja tem a sua autêntica origem em Jesus Cristo, e que, por isso, é o grande sacramento da Salvação para o mundo inteiro. E assim, ao contemplar a história demasiado humana da Igreja, ele não pode fazer como perante outras constelações históricas, e socorrer-se do pensamento de que se trata justamente de uma história de pobres homens, que, por todo o lado, no palco da história universal, se comportam de modo horrível; o cristão deveria antes ter a esperança e esperar que a vitória da Graça se mostrasse com esplendoroso brilho na história da Igreja, essa vitória da Graça que a Igreja tem de prometer ao mundo, também através da imagem com que lhe aparece. Mas, visto que o cristão honesto também a si mesmo se reconhece como pobre pecador, contribuindo para o obscurecimento da manifestação da Igreja, certamente que ele não vai retirar, farisaicamente, desse obscurecimento um direito a distanciar-se dessa Igreja de pecadores. Direito a crítica tem ele naturalmente sempre. A identificação última com o ser profundo da Igreja, que ele nunca perdeu nem perde, não significa concordância com toda e qualquer coisa que é feita na Igreja.
É bem possível que ainda hoje sejam tomadas injustificadas medidas administrativas, que reduzam indevidamente a legítima liberdade de opinião e investigação dos teólogos. Mas não se pode pretender remediar preventivamente a tais estreitezas da Igreja real, colocando-a diante do dilema de ou anunciar e garantir o puro dogma, ou remeter-se então simplesmente ao silêncio. Não resta, por isso, ao teólogo outra solução que não seja a de empenhar todas as suas capacidades, para que tais erros das instâncias doutrinais oficiais se dêem de facto o mais raro possível. Não há porém uma receita a priori para as evitar totalmente. Tais erros devem ser contados, com paciência, entre aquelas falhas e pecados que nunca faltarão na história de uma Igreja de pecadores. Mas, em última análise, nada disto afecta a eclesialidade de um cristão e de um teólogo, na sua relação existencial autêntica com a Igreja.
Um tal equilíbrio, legítimo e possível, naturalmente que existe antes de mais e de pleno direito no que respeita à participação na vida eclesial. Não se deveria menosprezar o significado, a força religiosa e mesmo certa normatividade teológica da piedade popular. Ela tem, muitas vezes, mais grandeza e percebe mais de Deus do que um magro racionalismo ou um bom comportamento segundo as conveniências sociais. Mas «na casa do nosso Pai» há muitas moradas. Não se tem uma pátria se não se está disposto a viver na companhia de desmazelados e possidónios. Quer-me parecer que muita gente sofre demasiado com esta Igreja, porque nunca entendeu bem em que consiste o seu autêntico ser cristão e a sua relação profunda com a Igreja.
Quando dou comigo a viver o meu cristianismo, na Igreja, de modo despreocupado e sem o problematizar, digamos mesmo que com aquela preguiça do espírito que vem já do hábito, pode naturalmente acontecer que, a certa altura, me pergunte assustado: Mas que fazes tu aqui? Então eu digo para comigo (para além de tudo o que, mesmo sem se poder dizer, não deixa por isso de estar presente): Não te é possível fugir para qualquer outra maior claridade do que aquela que já possuis; e não tens nenhum direito de te deixar cair em treva maior, ao pretenderes uma mais radical decisão de vida, pensando que a claridade, que já tens, poderia porventura ser mais esplen-dorosa e convincente do que é em ti. E continuo a dizer para mim: Aceitas com tranquilidade e serena esperança o Mistério incompreensível — como será possível haver um erro? Que outra coisa poderia eu, efectivamente, escolher que não estivesse já, há muito, abrangida por esse Mistério? E digo para comigo: Tu morrerás, e a tua morte atingirá toda a tua existência e também a teoria que fazes dela; não é, então, o único razoável morrer no interior da própria morte de Jesus (e, em consequência, viver já agora juntamente com ele)? Digo então para mim: Não é tudo isto propriamente já o cristianismo? Não poderá tudo o resto ser tomado simplesmente com este cristianismo, por difícil de entender ou suportar que seja, dado que tudo só juntamente pode ser possuído?
Quando assim me pergunto e me respondo, então parece-me lícito considerar, apesar de tudo, o meu cristianismo como evidente, parece-me lícito pensar e viver o incompreensível de maneira muito compreensível.
H. NORONHA GALVÃO
Peer review: yes
URI: http://hdl.handle.net/10400.14/14677
ISSN: 0253-1674
Aparece nas colecções:RD - 1981 - Vol. 011 - Fasc. 2

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