Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10400.14/13497
Título: Bund für das Volk und Licht für die Heiden (Jes 42,6)
Autor: Haag, Ernst
Data: 1977
Editora: Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Citação: HAAG, Ernst - Bund für das Volk und Licht für die Heiden (Jes 42,6). Didaskalia. Lisboa. ISSN 0253-1674. 7:1 (1977) 3-18
Resumo: ALIANÇA DO POVO E LUZ DOS PAGÃOS (Is 42,6)
Reconhece-se geralmente que Is 42,5-9 é uma unidade literária, embora se continue a discutir a interpretação. Do texto depreende-se claramente que quem fala é Javé e que no v. 6 se dá uma espécie de vocação. Mas não se vê com clareza quem é o chamado ou a quem se dirige a sua missão. Estará em causa o próprio Isaías? Ou teremos a vocação de Ciro? Será porventura o povo de Israel o chamado? Ou será o Servo de Javé? Que significa «aliança do povo» e «luz dos pagãos»?
1. Is 42, 5-9 no contexto dos cânticos do Servo de Javé.
O texto de Is 42, 5-9 reza assim:
5: «Assim fala o Deus Javé, que criou o céu e o estendeu, que fez a terra e tudo o que aí germina, que dá a respiração aos homens da terra e a todos os que nela vivem o espírito.
6: Eu, Javé, chamei-te em justiça. Tomei-te pela mão, criei-te e designei-te para aliança do povo e luz dos pagãos:
7: para abrir olhos cegos,tirar prisioneiros do cárcere e libertar da prisão todos os que jazem nas trevas.
8: Eu sou Javé, este é o meu nome; não deixo a mais ninguém a honra que me pertence, nem a minha glória aos ídolos.
9: Eis que as primeiras coisas aconteceram. Agora anuncio uma novidade. Ainda antes que ela surja dou-vo-la a ouvir».
Não se pode duvidar da unidade literária da perícope. O cântico do Servo de Javé (Is 42, 1-4) está concluído e não exige continuação. A fórmula de arauto no v. 5 é impensável na boca de Javé. E com 42, 10 começa uma coisa inteiramente nova, que nada tem a ver formalmente com os versículos anteriores, em que fala Javé. Nem se podem separar os vv. 8-9, onde alguns vêem a conclusão do oráculo sobre Ciro de Is 41, 21-29. Os vv. 8-9 pertencem à estrutura da perícope: fórmula de arauto com aposição de atributos de Javé (v. 5), vocação de um anónimo de quem Javé faz aliança do povo e luz das nações (v. 6), para abrir olhos cegos e tirar presos do cárcere (v. 7), concluindo com a auto-afirmação do poder de Javé na história (vv. 8-9). O género literário é, segundo Elliger, o de uma sentença de disputa, em que se cita um oráculo de vocação. Elliger pensa que o visado é Ciro, apresentado a gente que duvida da sua qualidade de instrumento de Javé na história mundial e sobretudo nos destinos de Israel. Assim se explica o «tu» da vocação e o «vos» da conclusão: eu, Javé, e mais ninguém incumbi Ciro desta missão universal. Se a determinação do género está correcta, já se vêem dificuldades para identificar o chamado com Ciro. Nunca se menciona o nome de Ciro. Não basta dizer que o papel de Ciro nos planos de Javé foi tratado numa perícope anterior (Is 41, 21-29), que o profeta agora concluiria. É preciso provar a conexão com o oráculo de Ciro. Além disso, há uma coincidência chocante entre o oráculo de vocação e o relato autobiográfico do Servo em Is 49, 1-6, onde o Servo é «luz dos pagãos» (v. 6), para levar a salvação além dos confins de Israel a todos os povos do mundo. O oráculo «citado» (Is 42,5-1) é, por conseguinte, tirado de Is 49,1-5 e trata de uma iniciativa salvífica de Javé, emoldurada numa confissão hínica do poder criador (v. 5) e numa auto-afirmação de Javé (v. 8). No Trito Isaías fala-se numa luz esplendorosa que emana da glória de Javé em Sião (Is 60, 1-21). Mas nunca se diz que Sião libertará presos da cadeia. Isso é missão do ungido, que leva a boa nova da salvação aos pobres (Is 61, 1-3), e também do Servo (cf. Is 42, 3). Daqui se conclui que o interpelado não é Ciro nem Israel, mas o Servo de Javé, como em Is 42, 1-4.
2. Is 42, 5-9 como complemento do primeiro cântico do Servo de Javé.
Quem chama é Javé (v. 5), o Deus único (cf. Is 43, 10-12; 45, 22; 46, 9), cantado como criador e conservador do mundo (v. 5b). A ideia da criação do mundo por Javé ocorre geralmente no Dêutero Isaías em contexto de discussão, com terminologia originária do hino (cf. Is 40, 12-31; 45, 18-19; 48, 12-16). Não se afirma tanto a criação do cosmos como a soberania do criador sobre as suas obras. É, pois, de supor que as afirmações de Is 42, 5 visem a revelação histórica de Javé. A conclusão da perícope (vv. 8-9) confirma-o: ao contrário dos ídolos, Javé é capaz de produzir algo de verdadeiramente novo na história, em prol da salvação dos homens. Introdução hínica e auto-afirmação de Javé na conclusão constituem uma moldura muito interessante da vocação do Servo: a vocação aparece como expressão duma iniciativa criadora de alcance universal. Javé «formou» e «designou» o Servo como aliança do povo e luz das nações (v. 6b). O sentido do primeiro verbo é discutido. Mas a acepção de «formar», «criar» para yasar tem bons fundamentos. Corresponde a natan, em sentido figurado «fazer em alguma coisa», verbo que no Dêutero Isaías só ocorre em Is 49, 6, curiosamente ao lado de yasar (cf. Is 49, 5). Está, assim, afirmado com maior clareza o que se insinuava na moldura da perícope: a designação do Servo para aliança do povo e luz dos pagãos é o resultado de uma iniciativa criadora de Javé quanto à viragem dos destinos do seu povo. Mas que significa «aliança do povo»? Kutsch dedicou uma série de estudos à noção de «aliança» (berit) e chegou à conclusão de que berit, na maior parte dos casos, significa «determinação», «compromisso». No campo profano, berit ou é o compromisso que alguém toma ou o compromisso que o sujeito do berit impõe a outro. E este o sentido radical. Mas também pode derivar para o de berit bilateral, tratado ou pacto. Deste uso secundário e relativamente raro, pensa Kutsch, provém, a tradução «aliança», que devia ser riscada do vocabulário teológico, uma vez que não é possível um compromisso bilateral de Deus com o homem. Westermann criticou estas conclusões. Admite que berit nunca se emprega na linguagem teológica do Antigo Testamento no sentido de compromisso bilateral, mas acha a tradução por «aliança» justificada em não poucas passagens. Gn 17 mostraria que berit sofreu uma evolução histórica e com isso uma mudança de significado. Enquanto em Gn 17, 4 berit significa uma espécie de garantia, a mesma palavra em Gn 17, 7 indica claramente um estado duradoiro, uma instituição entre Deus e homem. Berit não perde o significado fundamental de compromisso. Só que este sentido é alargado: o compromisso produz a ligação estável, a «aliança». Tal é o significado de berit no Dêutero Isaías. Javé promete que a sua graça nunca mais se afastará de Israel escatológico (Is 54, 10) e que a sua «aliança de paz» (berit íalom) não vacilará. No mesmo sentido, Javé fará com Israel uma «aliança eterna» (berit colam, Is 55, 3). Só nestes dois lugares do Dêutero Isaías ocorre berit no sentido de estado caracterizado por comunicação salvífica de Javé. O compromisso unilateral de Javé significa aqui evidentemente «aliança». «Aliança do povo» orienta-se por esta compreensão de berit. Mas quem é o beneficiário desta salvação que substitui o tempo do castigo? Quem é o «povo» com que Deus celebra a aliança? Os exegetas dividem-se em dois grupos. Para uns o «povo» é Israel; para outros a humanidade. Tanto as antigas versões dos Setenta, Vulgata e Targum, cujo peso não é para subestimar, como o facto de o Dêutero Isaías não apresentar um universalismo uniforme levam a referir «povo» a Israel. Na nova aliança, Israel ocupa o círculo central, mais luminoso. Os povos, ao invés, são o círculo exterior e recebem a luz que o Servo lhes comunica de dentro. As imagens do v. 7 — abrir olhos cegos, libertar prisioneiros e todos os que habitam nas trevas — descrevem a libertação da humanidade da situação de juízo. O pano de fundo é a experiência do exílio de Babilónia, em que Israel se sentia como num cárcere tenebroso (Is 42, 22; 43, 14). As «trevas» são a imagem do estado anti-salvífico do juízo (Is 45, 7; 49, 9). Os «olhos cegos» descrevem a obstinação dos pecadores (Is 42, 18-19; 43, 8). A missão do Servo de Javé é difundir a salvação de Deus. poderosa de Javé na história (v. 9). Na libertação operada por intermédio do Servo, Deus mostra-se como «Javé», como aquele que lá está para salvar os oprimidos (cf. Ex 3, 9-15). O que está para acontecer, o «novo» não tem comparação com os «primeiros acontecimentos» do passado (Is 41, 22; 43, 9,18; 46, 9; 48, 3). As «primeiras coisas» (risonot) são o tempo do castigo anunciado e concretizado, enquanto a «novidade» é a viragem iminente para a salvação (cf. Is 48, 3-8). A experiência de Israel é alargada a toda a humanidade.
3. Is 42, 5-9 à luz da escatologia profética
Pergunta-se finalmente quando e sobretudo por que razão se juntou esta perícope ao primeiro cântico do Servo de Javé. Is 42, 5-9 formará um complemento e uma continuação de Is 42, 1-4? A afirmação central da perícope — a designação do Servo para aliança do povo e luz dos pagãos — está no mesmo nível teológico de Is 54-55. Só aí se encontra a noção de «aliança» (berit) com o mesmo sentido de Is 54-55 em relação às outras profecias do Dêutero Isaías. As promessas do profeta já não se centram na esperada acção salvífica de Javé, mas no estado de salvação trazido por ela. Is 54-55 exprime uma escatologia mais desenvolvida: a libertação do exílio de Babilónia é apenas a passagem para um estado salvífico em que Javé revelará, de modo definitivo e irrevogável, a sua glória aos resgatados. Quanto ao género literário, Is 42, 1-4 aproxima-se da designação dum chefe carismático de Israel (cf. 1 Sam 9,16-17): apresentação do Servo por Javé (v. 1), descrição rápida da sua actuação (vv. 2-3), promessa de êxito (v. 4). Ao contrário dos chefes carismáticos dos primórdios da história de Israel, a personagem libertadora do Servo estende a sua missão a toda a humanidade. Esta ampliação escatológica exprime-se no relato autobiográfico de Is 49, 6, em que radica formalmente Is 42, 5-9. Esta perícope, ao mesmo tempo que completa Is 42, 1-4, é o resultado de uma visão mais profunda do acontecimento escatológico anunciado em Is 49, 6. «Como mensageiro da ordem salvífica de Javé, o servo de Deus não só aponta para a anunciada viragem que Deus determinou para a salvação do mundo inteiro. Mais que isso, o Servo já incarna na sua pessoa o definitivo e duradoiro compromisso unilateral de Javé, revelado nesta viragem para a salvação e libertação duma humanidade necessitada de salvação». No quadro da ideia de Deus no Antigo Testamento, a missão de aliança do povo e luz dos pagãos desenrola-se no sentido de uma unidade funcional com a acção salvífica de Javé no mundo. «Só o cumprimento desta promessa na figura histórica do salvador escatológico eleva a unidade funcional com a acção salvífica de Javé a uma unidade pessoal do agir e também do ser, a qual estabelece, por isso, verdadeiramente um novo começo para este mundo».
Peer review: yes
URI: http://hdl.handle.net/10400.14/13497
ISSN: 0253-1674
Aparece nas colecções:RD - 1977 - Vol. 007 - Fasc. 1

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